A Paróquia

A História

 

A paróquia de S. Domingos foi criada devido ao aumento da população da Vila de Cascais, que transbordou para fora das suas muralhas. Não temos dúvida em afirmar que toda a vida da localidade de S. Domingos de Rana se desenvolveu em redor da igreja, cuja fundação não nos foi possível concretizar, visto não havermos encontrado documentos em que nos baseássemos. Dúvidas também não há, porém, em se afirmar que o nome do templo era S. Domingos de Gusmão, mas que, por uma identificação de localização – já que outras igrejas de S. Domingos existiam – se passou a designar por S. Domingos de Rana.

Como referimos na origem do nome da localidade, a fundação do primeiro templo é muito anterior a 1589. Encontrámos na Torre do Tombo o livro de registos paroquiais de 1589 (que pressupomos serem os primeiros), cujo termo de abertura, assinado pelo cura Thomé Esteves, reza o seguinte: «Livro de Bautismos ee cazamentos de Defuntos na igreija se S. Domingos de Rana, quando começo este D. Joan de 89 anos». Nesse ano ali se registaram treze baptizados, três casamentos e quatro óbitos, sendo o primeiro (o dos óbitos) do teor seguinte: «Aos dês dias do mês de Julho falleceo f.co alvares morador que foi em Rana i os enterrado no adro desta igreij anão fes testamento». Mas para não ficarmos apenas pelos registos dos óbitos daremos indicação ainda de um casamento e de um baptizado: «Aos dês dias do mês e Setembro da era de 1589 recebi por marido e mulher conforme o Santo Concioliotrentino a porta desta igeija a Joan Vicente com (…) e naturais desta freguesia do logar do Logeal Elle em tires foram tístimunhaos jorge».(…e muitos». «Aos 30 dias do mês de Julho de 89 bautizei a Thome filho de Baltazar Alvares e Domingas Thome Foram padrinhos Christovão da Cruz Mário pi(…)»

 Verifica -se assim que a actividade dos primeiros registos principiou por um enterramento, seguindo-se um baptizado e depois, tendo em atenção as datas um casamento. Com os dados acima e outros que se irão apresentando, procuraremos tentar chegar a uma data tão aproximada quanto possível da fundação do primeiro templo que existiu em S. Domingos de Rana (pelo menos conhecido), já que, por essas alturas o País era uma longa sementeira de ermidas, capelas, presbitérios, mosteiros e sés. Frei Luis de Sousa, que nasceu em 1556 e faleceu em 1632, «reformou em estilo e ordem e ampliou em sucessos e particularidades» a Primeira parte da História de S. Domingos coligida por Frei Luis Cáccgas, mas que ele classificou como «materiais para edificar mais que edifícios feitos». Do que não há dúvida, porém, é que «Cácegas foi o cronista e pertence-lhe a Historia e Frei luís de Sousa foi o reformador, pertencendo-lhe o estilo», A primeira parte da História de S. Domingos de Rana encontrava-se julgada pelo censor da Ordem em 16 de Setembro de 1662 e a ordem de impressão do livro foi dada em Novembro do mesmo ano. È exactamente nesta primeira parte que se diz: «O Arcebispo de Lisboa se adiantou com o santo em muitas freguesias; são seis as que pudemos saber pelos nomes (…)

E a Ultima São Domingos de Rana termo de Cascais. Esta igreja de Rana é Sagrada de tempo imemorial, fazem os fregueses festa principal ao santo na primeira Dominga de Maio, e chamam-lhes Sagra; deve ser porque em tal mês se sagrou a igreja. Outra celebram por dia de Corpus com toda a pompa que o lugar pode a que acodem muitas cruzes e bandeiras das freguesias dos temos de Cascais e Sintra e algumas de Lisboa (…)» É, pois, dificílimo, em face destes testemunhos e dúvidas adiantar uma data para a fundação do primeiro templo. E mais difícil se toma se, se disser que os registos paroquiais de 1589 só se. Iniciaram por força do Concilio de Trento (1545- 1563), podendo, por conseguinte a Igreja estar sagrada de há muito e, por tanto, apta a receber corpos para enterramentos, o que vai ao encontro da História de S. Domingos. Será temerário situar a sua fundação na época do reinado de D. Manuel I (1495-1521) Julgamos que não. Inclinamo-nos fortemente para o início do século XVI, até porque há notícias de enterramentos na capela de S. Sebastião em 1593, na de N' S' do Rosário em 1607 e na capela-mor em 1608. É muito natural que o templo fique sem história durante muitos anos, prosseguindo a sua missão de culto, até que, segundo nos informam Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues no seu Dicionário Histórico e Geográfico, «se foi arruinado e, alem disso, sendo pequeno de dimensões para a população, foi demolido para se reconstruir (…)».

Todavia, em 1758 – três anos após o terramoto que assolou Portugal – o cura Joaquim Coelho da Silva informou os seus superiores: «Pertence ao Patriarcado de Lisboa, terno da Vila de Cascais, Comarca de Torres Vedras, é seu donatário o Execelentissimo senhor Marques de Cascais, está a paroquia situada dentro do lugar de São Domingos de Rana, cujo santo é o seu orago e ao presente se acha só com dois altares por ficarem todos os demais destruídos com o terramoto de 1775, é anexa á igreja de S. Pedro de Penarferrim (…)». Aceitamos como hipótese que a data de conclusão da segunda igreja de S. Domingos de Rana (a actual) seja a que se encontra inscrita no relógio de sol colocado na torre sineira 1838. Depois de muito pesquisar, sem resultados. Verificámos um enorme buraco na história da freguesia. Como vimos todos os dados que nos foi possível encontrar, relativos à história de S. Domingos de Rana são exclusivamente referentes ao templo que lhe dá o nome. Existe pois uma grande falta de dados que nos permita descrever com mais clareza a sua história.

Publicação em 27 de Setembro de 1984 no Jornal “Costa do Sol”

  

Lenda da Fundação da Igreja Matriz

Não só se desconhece a data da edificação da Igreja de S. Domingos de Rana, como os motivos que determinaram a sua localização. Contudo, existe uma lenda relacionada com a fundação do templo digna de registo.

Conta-se que, um dia, São Domingos de Gusmão surgiu no Alto de Rana, tendo sido avistado, pouco depois, sentado no outeiro onde viria a ser construído um dos mais emblemáticos monumentos da freguesia. A frequência das ‘visitas’ de São Domingos levaram o povo a acreditar que este pretendia que lhe construíssem uma capela. Os residentes em Rana defendiam que o templo devia ser edificado na designada “barreira de Rana”, opinião contestada pelos moradores do “alto de Rana”, local hoje conhecido por São Domingos de Rana, que preferiam vê-lo nascer perto de si. Uma vez que o santo deambulava pelas duas terras, acordou-se que o templo seria fundado no lugar onde este permanecesse mais tempo. A lenda não revela mais pormenores, apenas que os passeios de S. Domingos de Gusmão eram testemunhados pelos trabalhadores das inúmeras pedreiras então ali existentes.